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sábado, 23 de março de 2019

COMO CURAR UM FANÁTICO





               COMO CURAR UM FANÁTICO


              
               O eterno conflito entre judeus e árabes palestinos por uma partilha de terras justa e permanente e consequentemente a esperança de um dia ver reinar a paz entre esses povos é o principal tema deste ensaio do escritor israelense Amós Oz. Volto à escrita desse israelense, nascido em Jerusalém, porque ao ler De Amor e Trevas, um romance, descobri um autor de textos objetivos, densos e ao mesmo tempo povoados de humor. Um humor que serena a tragédia palestina e judia. Um humor que enfraquece a dureza do fanatismo, do radicalismo, da ortodoxia.
              Em verdade o assunto central deste ensaio é abordar o fanático, este ser tão reprodutivo no mundo contemporâneo. Em apenas cem páginas, Oz disseca o perfil enigmático e conflituoso do fanatismo religioso. E, por falar em humor, logo nas primeiras páginas sugere que "Fanáticos não têm humor, e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco do questionamento para não ser revelado o seu próprio erro."   E eu penso que Amós conhece bem o tema, pois viveu dentro de um caldeirão de fanáticos cegos em democracia, em liberdade, em respeito à diversidade. Ele pondera que Jesus Cristo disse "Perdoa-lhes: eles não sabem o que fazem". Mas ressalta que o fanático quer sempre infligir dor. E eles sabem o que fazem.  E explicando melhor, acentua que o "fanatismo e fundamentalismo muitas vezes têm uma resposta com uma só sentença para todo o sofrimento humano. O fanático acredita que se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta....O fanatismo é muito antigo. É muito mais velho que o islã, o cristianismo e o judaísmo".  E confirmando o que vemos com frequência, diz que "o fanatismo muitas vezes origina-se na vontade imperiosa de modificar os outros pelo próprio bem deles".  E que "muitas vezes, essas coisas começam em família, o fanatismo começa em casa...um impulso de viver sua vida calcada na vida de outra pessoa".
              Em certo momento, principalmente já no final, antes de uma entrevista grandiosa concedida no final de 2003, volta ao conflito entre palestinos e israelenses. Ele desejaria viver mais - morreu em 2018 - para ver consagrada a tão desejada paz. E ainda assim, debaixo de tantos conflitos, de tanto fanatismo, vislumbra um fio de esperança. Enfatiza que toda a sua obra direcionou para o "compromisso" entre os irmãos. Mesmo que muitos fanáticos tentaram desviar e "transformar o que eu descrevi como uma 'disputa imobiliária' numa Guerra Santa.
                É um pequeno texto, penso eu, que tem a condição necessária para aqueles que querem entender e acreditar na solidariedade social, na democracia e no livre arbítrio.

                       
        

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O JUDAS DE OZ

            

                        O JUDAS DE OZ


                     Lançando mão de uma história comovente, a relação de um estudante desiludido, cuja família entrou em decadência, e um velho conturbado, genioso, ranzinza,  mas misteriosamente otimista, esta obra mescla o velho e o novo, consternação e piedade de um povo em eterno conflito.
                Na verdade, Amós Oz, considerado o maior romancista israelense contemporâneo e que morreu há pouco menos de um mês, deseja relatar o desespero entre o “povo árabe e seus irmãos israelenses.” através de diálogos consistentes entre o jovem Shmuel, desistente da Univerisdade Hebraica, onde desenvolvia uma tese de pós-graduação, “Jesus na visão dos Judeus”, e o velho que expõe as suas reminiscências de uma vida longa para confirmar a necessidade de uma paz negociada entre os povos ancestrais e irmãos.
               Ao mesmo tempo o romance resgata a vida de Judas Iscariotes - provavelmente Oz aqui baseou-se nos escritos apócrifos - , desmitificando-o como o tradicional traidor. Judas é então tratado como um discípulo judeu bom, pacificador, inteligente e que exercia grande influência sobre Jesus. E Judas Iscariotes, que fora enviado pelos sacerdotes para revelar-lhes o verdadeiro poder do enviado de Deus, que pregava nos mais recônditos vilarejos da Galileia, acabou absorvido pela pregação e milagres de Cristo, tornando-se um dos seus seguidores mais fiéis. É isto que nos conta Amós Oz neste romance extraordinário.
                  O romance a todo instante, numa constante metáfora, evoca a necessidade da paz entre os homens. Afinal, Jesus trouxe a boa-nova, o perdão, o amor, a paz. Sem a evocação do Apocalipse como punição à diversidade.  Rompeu com a tradição sanguinária do velho, do antigo - numa referência moderna, expulsou a violência inimaginável da distopia de Gilead !! - E não a vingança, o ódio, o desejo de morte e derramamento de sangue entre irmãos. Porque mesmo diante da figueira, mesmo ao enfrentar os vendilhões do Templo, a sua mensagem era de paz, de amor e desejo de uma sociedade em harmonia e fraternidade. Diante de Jesus, de sua pregação pelos vales da Terra Santa, certamente aqueles que pregam a discórdia, o enfrentamento e a vingança receberia a redenção.
               
                     É a temática desta obra-prima !
                             
                  Sem esperança, o jovem Shmuel faz suas caminhadas noturnas pelas ruas de Jerusalém, como um errante em busca do destino final. Em suas elucubrações busca um sentido para si aqui na Terra. Reflete sobre a traição que o pai sofrera do sócio  na Empresa, levando a derrocada financeira de toda a família. Mas parece que, como numa epifania, assim que o romance caminha para o final, alguma luz de esperança surge em seus pensamentos: a paz, o amor entre os seres humanos aqui na Terra.
                E numa noite destas, ele para diante de uma figueira e colhe "um ou dois frutos precocemente amadurecidos....porque nenhuma figueira frutifica antes da primavera".  Na rua seguinte, caótica e "cheia de destroços, numa janela do segundo andar apareceu uma mulher jovem e bonita, num colorido vestido de verão." Uma mulher agradável e que, provavelmente, o faz lembrar da tristeza e decepção que sentiu naquele dia não tão distante em que Iardena, a jovem namorada o abandonou para sempre.
                Naquela rua escura e deserta, mesmo sem saber aonde ir, a esperança de dias melhores parece ter brotado dentro do jovem Shmuel...


                






















segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O Deus de Caim.





O DEUS DE CAIM

         Ele não foi um escritor maldito. Nem um poète maudit como Rimbaud, Verlaine, Poe ou Leminski. Ele fez parte dos olvidados, os esquecidos, os injustiçados. Sem reconhecimento pelo grande público leitor.  Mas Ricardo Guilherme Dicke foi aclamado por Guimarães Rosa, Jorge Amado, Antônio Olinto e outros escritores do Pós-Guerra. No fim da vida viveu no ostracismo em terras mato-grossenses, recluso, averso a entrevistas, a badalações literárias. Admirado por Hilda Hilst, foi tradutor, jornalista, artista plástico, professor. E com uma produção literária relativamente extensa. Destaco Cerimônias do Sertão e Deus de Caim - o qual acabo de ler.
        José Saramago escreveu o seu Caim com um viés humorístico, criativo e amplamente fora das narrativas bíblicas. Deus deu o castigo a Caim depois de "o ter expulsado do fatídico vale onde o pobre abel para sempre ficara. Sem nada para comer, sem uma sede de água salvo aquela que, por milagre, veio a cair finalmente do céu quando as forças da alma já de todo minguavam e as pernas ameaçavam ir-se abaixo..."
          Machado de Assis também inspirou-se em fatos bíblicos para expor a rixa entre irmãos no seu clássico Esaú e Jacó, transportando a disputa para o Rio de Janeiro do fim do século dezenove. A briga entre eles - os irmãos contenciosos - inicia-se mesmo no ventre da mãe e perduram até à idade adulta, passando por embates morais, políticos e financeiros. 
           Em Dois Irmãos, o escritor amazonense Milton Hatoum situa os irmãos gêmeos na Amazônia em pleno regime militar. A mãe dos irmãos litigiosos desempenha um papel primordial na moderação dos rebentos raivosos. Como uma Eva sem pecado, uma Maria Madalena sem os sete demônios, uma religiosa talvez sem fanatismo, curada pela intenção pacifista.
             O longo romance que acabo de ler no entanto me surpreende. Não apenas pelo o estilo literário seco, árido, pletora de neologismos, emulando  por vezes com certo voluntarismo Guimarães Rosa, longe de ser subserviente, mas com luz própria. Lançado há mais de meio século, a história da disputa entre os dois irmãos, aqui nomeados também de origem bíblica, Lázaro e Jônatas competem a mesma mulher, Minira. É daí que a contenda exacerba-se e Jônatas esfaqueia Lázaro, levando-o a um certo estado de catalepsia, julgado morto para mais tarde ressuscitar. 
            Dicke então descreve a escuridão  humana, a inveja, o ciúme, as desavenças, a cobiça, as intrigas do casamento em uma sociedade do interior do Mato Grosso, a imaginária cidade de Pasmoso, onde a moral, a ética  e o comportamento são regidos pela primazia do vil metal. Sem criar spoiler, um certo dia a casa grande desaba, afunda em um incêndio monstruoso como A Queda da Casa de Usher  de Poe, levando todos juntos às cinzas, em especial o amaldiçoado Jônatas. E Lázaro que ressuscita chora a morte do irmão agressor. O pecador fora punido - num sofrimento atroz - junto à mulher que amara antes de morrer queimado, "a mulher que dividira a morte com ele como se divide uma fruta".

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Regresso ao Melhor de Jorge

            

     O REGRESSO AO MELHOR DE JORGE





    Venho de guardar o último capítulo, intitulado Archanjo, para ler e finalizar a recém-lançada biografia de Jorge Amado no jardins do quintal da famosa casa do Rio Vermelho - Rua Alagoinhas, 33.
      Venho visitar o Memorial com meu sobrinho e fotógrafo preferido Maurice. Ficamos emocionados com o clima leve, transcendente, de magia e uma atmosfera de tranquilidade que exalam de cada canto da casa do maior escritor baiano. 
        No derradeiro capítulo da excelente biografia de aproximadamente seiscentas páginas da escritora e jornalista Josélia Aguiar lê-se: "Jorge dizia que depois de morrer ficaria vinte anos esquecido." Mas aqui sente-se que Jorge estará para sempre vivo e lembrado eternamente. Os atentos turistas que circulam em passos lentos incessantemente atestam e corroboram este sentimento.
         E uma turista loira de olhos verdes para ao redor do lago dos sapos ouvindo no headphone a canção de Caetano Veloso inspirada no seu amigo Jorge.

Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história....


         A música vaza em bom som dos ouvidos da encantada jovem visitante e me faz sentir aumentar a alegria e emoção e de em seguida sentar para ler finalmente o final do livro. E aqui sentado no banco do jardim da casa, vejo onde foram espalhadas as cinzas de Jorge e Zélia Gattai. 
             Talvez incentivado por esta biografia de fôlego voltei a ler o melhor de Jorge Amado (porque, como na maioria dos escritores de obra extensa, há trabalhos desprezíveis). Iniciei pela releitura de Capitães da Areia, livro-denúncia, queimado em praça pública pela ditadura Vargas, que aborda a miséria humana, o abandono das crianças numa cidade de desigualdade social  profunda. 
          Depois peguei nas quatro mulheres em um só volume - Gabriela, Tereza, Tiêta e Dona Flor - sentindo que estarei envolvido por um longo e incansável período, já que outros afazeres e leituras me ocupam. Mas a tarefa hercúlea é prazerosa! 
         Há O País do Carnaval, primeiro romance, que li há muito tempo e não pretendo relê-lo, porque a melhor literatura  de Jorge está nos romances que descrevem os personagens baianos e seus foclores.
          Por fim, gosto dos escritos de Jorge, apesar de pouquíssimas ressalvas, e de seu engajamento durante toda a vida em defesa dos mais fracos, dos desvalidos, dos oprimidos. E ele, como eu mesmo, acreditava na vida bem vivida, bem viajada, no humanismo, no altruismo como sendo os verdadeiros valores do ser humano no planeta Terra.
        

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

MASSACRE EM GUERNICA





Massacre em Guernica - A praça do Mercado já repleta de habituais compradores, donas de casa, moradores dos  vilarejos montanhosos vizinhos que chegam com os primeiros raios de sol. Ouve-se um burburinho de gritos, chamamentos, conversas amistosas entre moradores, algazarras das crianças que  correm num alegre e divertido vaivém.  A primeira esquadrilha de aviões de guerra alemães passa em baixa velocidade, num insuspeito ato de  reconhecimento, deixando  um rastro de fumaça no céu como um desenho lúdico executado pela mais inocente criança. Toda a gente para e levanta o olhar num misto de espanto e insipiência. Ninguém vira aquilo antes.  Guernica, a pequena vila incrustrada nas montanhas bascas, não vaticina o iminente inferno dantesco que se implantaria dali a instantes. Poucos minutos depois, uma grande e potente esquadrilha da Luftwaffe despesa as primeiras bombas sobre a cidade. A pobre Guernica, desconhecida até mesmo nos mapas, fora a escolhida pelos nazistas para testar a eficiência da nova forma de ataque - blitzkrieg - . Apenas um treinamento. Uma bomba voa e explode no claustro da catedral. O pároco corre em braços abertos na direção do centro da praça, o olhar desesperado aos céus, rogando, praguejando em angústia infinita. Mais uma bomba cai no meio da praça do Mercado. As vísceras de um cavalo são lançadas e espalhadas no calçamento já inundado de sangue e poeira. Uma mãe corre e abraça a filha ainda criança, num ímpeto materno inconsolável. As duas sucumbem com a explosão seguinte da terceira bomba. Perto dali a recém-chegada fotógrafa da revista New Yorker's faz a primeira foto: cena de Pietá!! Um degrau abaixo de Dante.  Para confirmar a eficiência da blitzkrieg, uma chuvarada de bombas agora destroi sem pena todo o pacato vilarejo de invisíveis seres humanos inofensivos.  Mais uma vez, a esquadrilha faz uma meia-volta por detrás das montanhas e despeja um sem número de artefatos incendiários deixando uma.montanha de escombros e fogo. O golpe de misericórdia.
Uma pausa.
Respiro um pouco. Bebo um gole de água. Me aproximo. As duas monitoras me observam com olhares discretos.  Aqui no Museu da Rainha Sofia em Madrid, num salão exclusivo, volto a examinar detalhes do imenso painel - obra máxima e mais célebre - do pintor espanhol Pablo Picasso. Cheguei cedo para apreciar por um longo tempo, antes mesmo da horda de turistas invadir o salão.
          É assim talvez carregado de emoções ou cansaço que minhas pernas tremem. Venho da maratona de Lisboa, a qual corri há alguns dias, parando um breve tempo na capital espanhola para enfim realizar simples homenagem à esta obra universal e eterna da humanidade.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O VERMELHO E O NEGRO

                   
               

         O VERMELHO E O NEGRO
Creio piamente na necessidade incontornável de ler o romance a priori (aqui no caso) no qual o filme foi baseado. Mesmo assim, a empreitada do diretor Claude Autant-Lara não foi nada fácil, já que a obra-prima de Stendhal, um dos maiores clássicos da literatura francesa, conhecido e consagrado no mundo inteiro, de certa maneira inibe e amendronta a adaptação para o cinema ou o teatro etc.
Henri-Marie Beyle, o verdadeiro nome de Stendhal, que utilizou mais de 170 pseudônimos, desenvolve uma trama de um realismo massacrante, intenso, onde denúncia a hipocrisia, a mentira, o ciúme, a inveja, maldade reinante na sociedade francesa nos momentos cruciais da Restauração. Napoleão já se encontrava em Santa Helena. A Revolução Francesa ainda marcava as lembranças de um tempo não muito distante. Mesmo com o absolutismo apagado definitivamente, vê-se a persistência da opressão, a imobilidade social, a religião ditando os movimentos da sociedade, a liberdade, igualdade e fraternidade ainda engatinhando.  E ainda a injustiça marcante no seio extrato social.
Stendhal criou o protagonista, Julien Sorel, lá na fictícia Verrières, vilarejo do interior, filho de carpinteiro miserável, para revelar a inútil e perigosa trajetória ambiciosa da ascensão social na época. Julien usa como catapulta a Igreja Católica para, através dos estudos adquiridos, penetrar na aristocracia. Mas não foi aceito devido à sua origem humilde, embora tenha se tornado um latinista, um conhecedor da religião católica, sem ser na verdade um crente na intimidade.
Julien Sorel foi condenado à guilhotina não pela tentativa de assassinato mas por sua ousadia de imiscuir-se nas famílias da alta sociedade. E, pecado maior, ter amado as mulheres desta mesma sociedade fechada aos intrusos de uma dita classe inferior.
Então, Stendhal denuncia realisticamente as injustiças e o desprezo que a casta superior mantém com os desvalidos, os sem títulos.
O filme francês na versão de 1954, mais de um século depois da obra original, tradicionalmente enfatiza a vida amorosa e o heroísmo de Julien. A cena inicial, magistral, ocorre no tribunal quando o réu pronuncia-se de forma emocionante. E ali mesmo, sentado, esperando o veredito,  Julien inicia um flashback revelando o seu primeiro contato com a família do prefeito, começando sua carreira de preceptor. Em seguida a entrada no seminário, a ida à Paris, onde sonhava finalmente com a sua escalada social.
Belo filme que retrata “quase” fielmente a obra máxima de Stendhal. Claro, muitos trechos do livro foram cortados para adaptação, mas que não comprometeram a sequência. Como disse André Bazin no “Cahiers du Cinéma”: “ a escolha de suprimir partes do romance me parece arbitrária com relação aos que eles mantiveram. Mas, ainda assim, é preciso dar crédito ao filme, que fez um um trabalho considerável de adaptação. Façam uma lista de romances adaptados para o cinema, romances tão sutis como esse, e vejam quais filmes podem nos interessar a esse ponto sobre a realidade moral dos seus personagens”...










































 O VERMELHO E O NEGRO
Creio piamente na necessidade incontornável de ler o romance a priori (aqui no caso) no qual o filme foi baseado. Mesmo assim, a empreitada do diretor Claude Autant-Lara não foi nada fácil, já que a obra-prima de Stendhal, um dos maiores clássicos da literatura francesa, conhecido e consagrado no mundo inteiro, de certa maneira inibe e amendronta a adaptação para o cinema ou o teatro etc.
Henri-Marie Beyle, o verdadeiro nome de Stendhal, que utilizou mais de 170 pseudônimos, desenvolve uma trama de um realismo massacrante, intenso, onde denúncia a hipocrisia, a mentira, o ciúme, a inveja, maldade reinante na sociedade francesa nos momentos cruciais da Restauração. Napoleão já se encontrava em Santa Helena. A Revolução Francesa ainda marcava as lembranças de um tempo não muito distante. Mesmo com o absolutismo apagado definitivamente, vê-se a persistência da opressão, a imobilidade social, a religião ditando os movimentos da sociedade, a liberdade, igualdade e fraternidade ainda engatinhando.  E ainda a injustiça marcante no seio extrato social.
Stendhal criou o protagonista, Julien Sorel, lá na fictícia Verrières, vilarejo do interior, filho de carpinteiro miserável, para revelar a inútil e perigosa trajetória ambiciosa da ascensão social na época. Julien usa como catapulta a Igreja Católica para, através dos estudos adquiridos, penetrar na aristocracia. Mas não foi aceito devido à sua origem humilde, embora tenha se tornado um latinista, um conhecedor da religião católica, sem ser na verdade um crente na intimidade.
Julien Sorel foi condenado à guilhotina não pela tentativa de assassinato mas por sua ousadia de imiscuir nas famílias da alta sociedade. E, pecado maior, ter amado as mulheres desta mesma sociedade fechada aos intrusos de uma dita classe inferior.
Então, Stendhal denuncia realisticamente as injustiças e o desprezo que a casta superior mantém com os desvalidos, os sem títulos.
O filme francês na versão de 1954, mais de um século depois da obra original, tradicionalmente enfatiza a vida amorosa e o heroísmo de Julien. A cena inicial, magistral, ocorre no tribunal quando o réu pronuncia-se de forma emocionante. E ali mesmo, sentado, esperando o veredito,  Julien inicia um flashback revelando o seu primeiro contato com a família do prefeito, começando sua carreira de preceptor. Em seguida a entrada no seminário, a ida à Paris, onde sonhava finalmente com a sua escalada social.
Belo filme que retrata “quase” fielmente a obra máxima de Stendhal. Claro, muitos trechos do livro foram cortados para adaptação, mas que não comprometeram a sequência. Como disse André Bazin no “Cahiers du Cinéma”: “ a escolha de suprimir partes do romance me parece arbitrária com relação aos que eles mantiveram. Mas, ainda assim, é preciso dar crédito ao filme, que fez um um trabalho considerável de adaptação. Façam uma lista de romances adaptados para o cinema, romances tão sutis como esse, e vejam quais filmes podem nos interessar a esse ponto sobre a realidade moral dos seus personagens”...


terça-feira, 30 de agosto de 2016


 

 

CARTA A UM JOVEM MARATONISTA

 

Desde o início dos tempos, o fiat lux, o sol nasce para todos. Às vezes, inclemente e impiedoso. Outras vezes, lânguido, dissimulado, afável e se escondendo por detrás de nuvens sombrias. De uma maneira ou de outra, no amanhecer, você, corredor, faz sua escolha: determinar um estilo de vida invejável.  O lado belo da história da vida é construído sob os atos mais banais, simples, rotineiros. Durante o dia ou à noite - pois há aquele que prefere respeitar o seu próprio ciclo circadiano determinado e adaptado ao seu afazer diário -constrói-se uma paixão por este esporte que pode mudar definitivamente o rumo da vida, tanto físico quanto emocional.

Portanto, meu caro amigo corredor, maratonista ou ultramaratonista ou ainda iminente titular dos míticos quarenta e dois quilômetros e alguns metros, sofridos e prazerosos, saiba que não é necessário fazer um pacto fáustico para se tornar um amante permanente e incansável do movimento do corpo, seguindo os passos dos nossos ancestrais numa cruzada filogenética com o propósito de perpetuar a nossa espécie. É primordial, sim, que seja disciplinado e feliz com os treinos, não importando o que queira correr, nos entremeios, nas competições etc.: 5km, 10km, meia ou maratona completa, ultramaratona e assim por diante..., levando sempre em consideração as variantes, o descansar, o respeitar das manifestações indicativas do corpo. 

 

 

É de inestimável importância também que carregue ad infinitum o estado de espírito do ser maratonista. Quero dizer, o desvencilhar constante daquele eterno estado de competição, tão prejudicial ao intuito de ser longevo, objetivo maior do amadorismo. É claro que você precisa de um estímulo, a fim de se manter em equilíbrio com o esporte: a competição consigo mesmo. É neste fulcro principal que giram o amadorismo e o deleite de continuar, de ser perene. Insere-se da mesma forma o grande prazer de estar participando de um grupo de seres que carrega as mesmas alegrias, os mesmos objetivos, as mesmas dificuldades e por vezes as mesmas decepções. É por isso que, em síntese, o corredor é um ser gregário, porque sempre necessita de um conselho, de uma opinião, de uma ajuda providencial nos momentos críticos. E saiba que não é apenas a endorfina, muitas vezes excretada no momento mais crucial de uma maratona, que certamente lhe inunda de felicidade e autoestima, mas também o estímulo sincero de um colega.

Não duvide, nem se engane. Cada indivíduo tem a sua particularidade na prática do esporte, assim como há idiossincrasias deste mesmo indivíduo diante do comportamento social, familiar, trabalho etc. Há seres humanos carregados predominantemente de fibras musculares rápidas, tensas, próprias às provas curtas, velozes – as chamadas fibras brancas. Outros seres, ao contrário, possuem em profusão fibras vermelhas, lentas, resistentes e inerentes a você, maratonista, que se propôs a ir tão longínquo. Assim, por perscrutação própria e num lance de autoconhecimento, na maioria das vezes plausíveis, é de bom

 

alvitre que crie seu estilo, porque desta maneira seu desempenho sempre será mais confortável, confiável e isento de lesões intermitentes.

 

         Com toda esta prudência, participará sem dúvida de um sem-número de maratonas. E chegará à maturidade atingindo um dos feitos mais magnânimos no esporte: permanecer ativo, participante e frequente até os últimos momentos. Mas, muito antes disso, você poderá se gabar de ter viajado por cidades nas quais desbravou ruas, avenidas e parques com seus próprios passos, assim como poderá expor as medalhas a toda gente, como um triunfo máximo e de extremo simbolismo.

                            E last but not least a promoção da saúde. A melhora da condição de vida, a prevenção das doenças metabólicas surgem em osmose e como condição sine qua non para uma vida saudável. E saiba ainda que ser maratonista não é etiqueta de envelhecimento precoce. A oxidação celular, a produção de radicais livres são fenômenos naturais na fisiologia humana. E, ao contrário, quando equilibrados são bem-tolerados e aproveitados para o bem do próprio corpo. Mais uma vez, o que se deve evitar sempre é o excesso. Mas você que não pretende ser um maratonista de elite, um atleta profissional com treinos semanais de mais de duzentos quilômetros em alta velocidade, não padecerá deste mal, tão propalado pelos leigos ou falsos connoisseurs da fisiologia do movimento humano.

                  

 

                   Você terá um mundo à frente, caro maratonista! Um sem-número de momentos felizes, alguns momentos de tristeza, é claro, mas desprezíveis. É o simulacro da vida. Mas o importante é que construirá um arcabouço de histórias atraentes e mágicas para, quando atingir a maturidade, quando as lembranças revolvem-se no mais fundo da memória, permitir-se contar sua façanha aos seus netos embevecidos... E contar ainda a priori que você não foi apenas um espectador, mas sim o protagonista de todos os acontecimentos, o construtor da própria epopeia.

 

                   Então, sem falsa modéstia, parafraseando Tom Wolfe, se sentirá o centro do universo para sempre. E é assim que um maratonista deve se sentir mesmo, afirmo com consciência. Porque desde que o soldado-mensageiro Filípedes, quase meio século antes de Cristo, exausto e estropiado, partiu para Atenas a anunciar a vitória sobre os persas, que se sabe “nenhum atleta depende tanto de obstinação quanto o corredor de Maratona, o especialista em longa distância. É dele o teste épico, a provação destruidora do fôlego e dos músculos.”

                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                   Enfim, o sol no lusco-fusco também indica o horizonte e é no poema de mesmo nome que o poeta Fernando Pessoa menciona os desejos, os sonhos:

 

                                “O sonho é ver as formas invisíveis

  Da distância imprecisa, e, com sensíveis

 Movimentos da esperança e da vontade,

                       Buscar na linha fria do horizonte

 A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –....”