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domingo, 30 de agosto de 2020

SIMONE DE BEAUVOIR, uma vida

 

              LEITURA DA SEMANA#1 SIMONE DE BEAUVOIR – UM VIDA  ​​
       
               Ainda no início da adolescência ela já sabia o que queria ser: filósofa, escritora. Todos os dias, quando voltava do colégio, conversava com a amiga Zaza falando de seus sonhos, seus anseios, suas leituras. Com fervor, lia os filósofos de jeito ultrarrápido e compulsivamente Hegel, Sören Kierkegaard, Husserl e principalmente o favorito Henry Bergson. Tinha a consciência de seu poder de reflexão, autossuficiência etc, pois aos sete anos já havia escrito uma história de cem páginas, Les malheurs de Marguerite – As desgraças de Marguerite -. ​​ Nascida numa família de burgueses católicos, conservadora e da direita francesa que aceitava a República, porém tinha pendência à aristocracia, à monarquia. Destarte, logo cedo para surpresa dos pais, Simone de Beauvoir se rebelou contra isso. Em toda sua juventude rechaçou o desejo da mãe em proporcionar-lhe um casamento tradicional e torná-la uma mulher católica fervorosa, mãe, dona de casa. Abominou a ideia em receber o dote e, por fim, ser obediente incondicional ao marido, respeitando a condição da mulher francesa da época. Simone queria ser diferente. ​​ Em O segundo Sexo, a obra máxima, alcança um escopo muito além da célebre frase “ninguém nasce mulher: torna-se mulher” e aprofunda “concretamente na busca incansável pela independência da mulher”. Portanto, ela diz logo na introdução que “não se trata aqui de enunciar verdades eternas, mas de descrever a fundo universalmente sobre o qual se desenvolve toda a existência feminina singular.” ​​ Esta recente biografia de Kate Kirkpatrick – bem verdade que toneladas de páginas já foram escritas sobre a vida de Beauvoir – envereda mais pelo caminho de seus amores “contingentes”, revelando fatos inusitados e desconhecidos do grande público relativos ao pacto que ela fizera com Sartre ainda em plena juventude. ​​ O pacto que eles consagraram – Sartre com vinte e três anos e Simone com apenas dezenove anos de idade – logo depois de sair do cinema numa noite agradável (assistiram ao “Tempestade sobre a Ásia”, filme soviético dirigido por Vsevolod Pudovski), no final de uma caminhada pelos Champs-Élysèes. Chegaram até ao Carrossel do Louvre e ali sentados , num banco de pedra, havendo como testemunha uma velha que alimentava um gato miando, faminto, selaram o contrato de dois anos: “não somente nenhum de nós nunca mentiria ao outro, como também nada lhe esconderia”. Sartre explicou mais efusiva e detalhadamente que “entre nós, trata-se de um amor “necessário”, convém que conheçamos também amores “contingentes”. ​​ Tempos depois, o contrato seria renovado para a eternidade. ​​ Simone de Beauvoir se converteu em celebridade no mundo inteiro, assim como Jean-Paul Sartre. Eles viveram juntos plenamente por mais de meio século. Sartre se envolveu com dezenas de amores “contingentes”: jovens atrizes, escritoras, mulheres que se transformaram em celebridades no mundo das artes. E Simone da mesma maneira, se apaixonou por mulheres e homens que chegaram também ao estrelato mais tarde. O amor mais “contingente” dela, dizem que foi o escritor americano Nelson Algren, embora Claude Lanzmann tenha despertado um amor fulgurante no início do relacionamento. Sem dúvida, no entanto, o único amor “essencial” Jean-Paul Sartre ultrapassou a todos os outros “contingentes”. Por isso, permanecem juntos para a eternidade no Cemitério de Montparnasse, como num drama shakespeariano. ​​ Esta biografia também revela a filósofa combativa, tenaz antirracista, defensora implacável da causa feminista, dos oprimidos, humilhados e ofendidos. E mostra uma escritora irredutível no enfrentamento ao establishment, tendo em mãos apenas a sua caneta - e que caneta prolífera!! Ela dizia que “a melhor maneira de explodir um saco de ar quente não é acariciando-o, e sim cravando as unhas nele”. Apoiou com veemência o anticolonialismo francês e quase foi presa pelo governo do general De Gaulle (1890-1970). ​​ Beauvoir viveu uma vida fascinante. Claro, houve momentos de sofrimentos, de dúvidas, angústias, de reflexões sobre o seu ateísmo. Mas ela era existencialista, humanista e viveu ao lado “do amigo incomparável de meu pensamento”, contrariando tudo aquilo que sua mãe planejara. ​​ Em verdade, ela foi a mulher que fincou as bases do feminismo do século XX. E inspirou um sem-número de futuras defensoras do Movimento de Libertação da Mulher. ​​ Eis aqui uma extraordinária biografia para quem quer saber mais sobre o ilustre casal intelectual do século passado. Em síntese, tenho a sensação, apesar de críticas em contrário, de que “se há algo a aprender com a vida de Simone de Beauvoir é isso: ninguém se torna o que é sozinho !”

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A Montanha Mágica


                         


                            

                                                        A MONTANHA MÁGICA

 

Mil e uma noites não foram necessárias para desvendar o mistério da montanha de mil páginas deste consagrado romance mundialmente. No entanto, vários dias concomitantes ocuparam-me, dias mágicos, encantados e felizes resgatados de dentro da angústia da pandemia. Lembrei-me das noites silenciosas do rei Shariar diante de Sherazade, a cada noite mais enfeitiçado e esquecendo de seus propósitosprimários, de seu mundo excruciante e desejoso de vingança. Me lembrei até de Michel Foucault (1926-1984) analisando a narrativa, a oralidade da cativante contadora de histórias: “Penso que em As mil e uma noites”, falava-se, narrava-se até o amanhecer para afastar a morte, para adiar o prazo deste desenlace que deveria fechar a boca da narradora.” Mas, neste monumental romance de formação, que me dei a ousadia de resenhar,Thomas Mann (1875-1955) não escreve apenas sobre a morte senão sobre a vida, sobre o tempo, política, filosofia, amor e ódio...

Mann ganhou o prêmio Nobel de literatura pelo aclamado “Os Buddenbrooks”, embora o mais popular seja mesmo “Morte em Veneza”. O escritor, vindo de família alemã rica, abastada, burguesa retrata com frequência essa condição em seus inúmeros livros. Era filho de brasileira, Julia da Silva Bruhns (1851-1923) filha de alemão e mãe portuguesa latifundiários na região de Paraty, época de D. Pedro II. Referindo-se a isso, uma vez ele disse que tinha orgulho de ter o sangue brasileiro correndo em suas veias: “...creio que à origem latina e brasileira devo certa clareza de estilo. E, para dizer aos críticos, o temperamento pouco germânico. Li apaixonadamente os escritores alemães, clássicos russos, franceses e ingleses, porém estou certo que a influência mais decisiva sobre a minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe.”

Em “A Montanha Mágica”, a opus Magnum, observa-se a exposição da alegria na cena do carnaval, as reuniões festivas e debochadas, um sem-número de confraternizações regadas à comida pantagruélica.  Destarte, era uma vida de felicidade e opulência. Certamente ele retratava ali a sua própria vida, assim como da mesma forma nos outros romances.  Embora também mencionasse os momentos sombrios, difíceis, reflexo dos suicídios de suas duas filhas – Julia e Carla -, a fuga da Europa, assolada pelo nazifascismo, para os Estados Unidos. Junto a esses fatos a lida com o homossexualismo em anos soturnos na Europa e no mundo. No exílio americano converteu-se em ferozcombatente ao führer Adolf Hitler. Dizia sempre que “onde eu estiver a Alemanha sempre estará”. Voltou tempos depois, já naturalizado americano, para Zurique onde está sepultado.

A Montanha Mágica” é uma narrativa sobre o tempo. Em relação a isso, antes de iniciar a longa história Thomas Mann avisa que “queremos narrar a vida de Hans Castorp – não por ele –“e que “os fatos aqui referidos se passaram há muitos anos já. Estão, por assim dizer recobertos pela pátina do tempo, e em absoluto não podem ser narrados senão na forma de um passado remoto.”

Então Hans Castorp, o protagonista, jovem engenheiro naval recém-formado de Hamburgo, rico e herdeiro de vultuosa fortuna, sempre protelando o início da profissão, resolve visitar o primo Joachim lá no alto das montanhas dos Alpes suíços num sanatório para tuberculosos – só para a nata da burguesia europeia e mundial. Desde a longa viagem de trem subindo as montanhas até o único primeiro dia no Sanatório Internacional Berghof, onde o primo estava em tratamento há algum tempo, a narrativa se arrasta em longas duzentas páginas. O tempo é elástico ali. Ninguém tem pressa. Todos sabem das chances de sobrevivência. E Hans Castorp chega para ficar apenas três semanas como visitante. À primeira vista ele não gostou.

- Não! Para falar com franqueza, não acho a paisagem assim tão formidável !

Nesse mesmo primeiro dia, ao ser apresentado ao dr. Krokowski, disse que passaria ali apenas três semanas em visita ao primo tuberculoso e que gozava de perfeita saúde.

- Será? – perguntou o dr. Krokowski, avançando a cabeça obliquamente, como para caçoar, enquanto o seu sorriso se acentuava – Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem de perfeita saúde...

Pouco tempo depois Hans Castorp conhece Settembrini, Lodovico Settembrini, um escritor humanista italiano de veia carbonária que já se encontrava ali também desde muito tempo. E o niilista italiano vai transfigurar-se num grande amigo e preceptor de nosso herói, pois possuía uma vasta cultura, apesar de sua incontrolável fanfarronice.

Aos poucos Castorp vai conhecendo toda aquela gente rica e modos burgueses ao extremo, gente toda em tratamento que se encontrava cinco vezes ao dia para refeições em sete grandes mesas separadas e ordenadas. Mesas de ricaços, topo exclusivo da pirâmide, mesas de, vamos dizer, menos ricos, as mesas dos aristocratas russo, dos “russos ordinários”... e assim se lavava a roupa suja da Europa no meio de pratos e mais pratos, digno de A Comilança de Marco Ferreri. Era o local onde se discutia sobre tudo. As mesas redondas permaneciam sempre completas, pois as mortes eram diárias, mas outros pensionistas chegavam imediatamente para ocupar os lugares vazios.

Chega o momento em que o nosso rico engenheiro conhece Mme. Chauchat e se apaixona. Clavdia Chauchat, uma suposta russa nobre que falava francês, despertou um sentimento arrebatador no “visitante e espectador desinteressado.” Ao passar pela primeira vez por Hans Castorp “ela esboçou um leve sorriso ao ver aqueles olhos e, segurando com a mão a trança que lhe cercava a cabeça levemente avançada, desceu à sua frente pela escada a passo elástico e silencioso.”

Dias depois, eles travaram um longo diálogo em francês – por quase vinte páginas do romance e sem tradução da editora Nova Fronteira sugerindo um enlace enredado no destrinchado empréstimo de uma lapiseira de prata!

Ao longo do romance vão surgindo diferentes personagens que vão e vêm. Settembrini encontra em Naphta – um judeu convertido ao cristianismo, à ordem dos Jesuítas – o seu oponente, debatedor feroz, intolerante, sectário. Porque Settembrini acreditava na concretude do homem, na ciência, e na negação da existência de Deus. E ao longo dos meses os ânimos se arrefeceram pouco a pouco redundando no....  evito o “spoiler”, caro leitor, para não estragar a sua futura leitura!

Pois bem, o romance é muito extenso, é fato, mas de uma beleza extraordinária. Abre todos os leques da existência humana através dos infindáveis diálogos. Comenta-se sobre a morte extensamente vis a vis o ambiente. Recorre-se sobre a religião à exaustão, sobre a mitologia e os tempos imemoriais. Fala-se sobre livros e o “efeito purificante e santificador da literatura, a destruição das paixões pelo conhecimento e pela palavra.”

Na realidade, mais uma vez, o tema desse vasto romance é o tempo. Pois que o personagem central Hans Castorp, que pretendia apenas visitar o primo nas montanhas de Davos, depois de diagnosticado com a tísica ia ficando semanas, meses, anos... “O tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida”, diz o narrador.

Dizem que o melhor livro de Thomas Mann, a verdadeira opus Magnum, seria o “Dr. Fausto”. Talvez seja mesmo. Porém ele próprio considerava “A Montanha Mágica” o livro que mais  mais apreciava.

Me arrependo com certo remorso de ter tantas vezes ao longo dos anos olhado sempre de esguelha para este livro lá no alto da minha biblioteca sem nunca o ter resgatado de sua inércia. Talvez por algum temor obscuro de sua grandeza. Ou talvez com medo do tempo que ele me auferiria. Mas agora faz parte do ganho, do acúmulo de meu conhecimento. É o que a literatura nos recompensa. E nos direciona, segundo Thomas Mann a “uma longa jornada rumo a si próprio.” 

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Notas do Subsolo - Dostoiévski - Em A Idade da Razão Jean Paul Sartre, o maior expoente do Existencialismo, inicia o romance com o sofrimento da mendicância, o sofrimento da alma, a injustiça social e a confabulação da felicidade. Tudo ao mesmo tempo, tudo ali nas primeiras páginas... Quase cem anos antes Dostoiévski escrevia Notas do Subsolo, no meio de uma crise física e psicológica monumental. Escrevia num quarto pobre, sem calefação, a mulher numa cama ao lado morrendo de tuberculose, a neve caindo e o frio implacável, a penúria e a falta de dinheiro para suprir até mesmo as necessidades básicas. Um inverno em Moscou, frio e hostil como o diabo! Nessas condições, Dostoiévski criou uma obra de arte comparável a Crime e Castigo, a Os Irmãos Karámazov e Memórias da Casa dos Mortos, buscando no seu interior, no seu subsolo o alimento para expressar o sofrimento, o desejo de liberdade, a integralidade da felicidade. Uma obra que é considerada a precursora do Existencialismo de Kierkegaard, Sartre, Camus, Simone de Beauvoir e tantos outros... Veja, como Camus em O Estrangeiro, o texto choca o leitor logo nas primeiras linhas: "Eu sou um homem doente...Sou um homem malvado. Sou um homem desagradável. Creio que tenho uma doença grave do fígado. Aliás, não compreendo absolutamente nada da minha moléstia e não sei mesmo exatamente onde está o mal." A partir de então, o narrador mergulha no mais profundo recôndito da alma humana, em busca do livre-arbítrio, da existência antes da essência, da liberdade plena. Resumindo: leia Notas do Subsolo e uma fenda será aberta no seu interior, no seu subterrâneo!!

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Houve uma época em que escolhia os livros na livraria pelos títulos. Os títulos me atraíam, confesso sem pudor: A Montanha Mágica, Conversas na Catedral, A Obra em Negro... Tempos depois, a suntuosidade, a beleza, o esmero artístico da capa ganharam lugar e assim passei a comprá-los pela capa. Algumas ostentando verdadeiras obras de arte! Mais tarde, melhor conhecedor de literatura, a escolha revelou-se mais selecionada e, consequentemente, determinada pelo conteúdo e conhecimento prévio do tema de cada livro. Mas eis que agora estou diante de minha caótica, embora exígua, biblioteca e buscando mais um Dostoiévski (este ano estou no momento sublime dos russos) e sou atraído pela sugestiva e bela capa de O Eterno Marido. Embora tenha visto ali contíguo o "Notas do Subsolo" da Martin Claret, uma bela capa sem dúvida, não foi uma Escolha de Sofia. O Eterno Marido foi escrito em um curtíssimo espaço de tempo. Menos de três meses. Dostoiévski estava em apuros financeiros, rodeado de credores e uma vida de penúria. E escreveu a toque de caixa, uma novela curta porém extraordinária, espelhando o monstro literário que ele carregava dentro de si. Embora ele próprio não expressasse grande amor, o livro foi aclamado no momento do lançamento, em folhetins, pela crítica da época. O tema principal é o adultério feminino. Ou seja, de grande atração para os leitores da época. Simplesmente porque o masculino em contrapartida era aceito normalmente tanto pela aristocracia quanto pela plebe. Fiódor Dostoiévski não expressa seu ponto de vista aqui no texto. Ele fica de fora. Pois sabemos que ele foi um seguidor e conhecedor profundo da Bíblia. E que foi o único livro que leu durante os longos anos de prisão na Sibéria. Por isso, em toda a sua obra posterior o escritor espalhou Jesus Cristo, a crença em Deus e o catolicismo por todo o seu trabalho. Mas vamos falar do Eterno Marido: Veltchaninov é um nobre solteirão que vive à caça das mulheres insatisfeitas no casamento. Via de regra é o amante ideal para essas infelizes. E ele sabe disso e se vangloria. Sobre uma delas ele diz: "É uma dessas mulheres que nasceram para ser infiéis ao marido... dessas que não caem, antes do casamento. É a lei de seu temperamento que isto aconteça depois. O marido é o primeiro amante..." Anos depois de suas aventuras amorosas, Veltchaninov recebe a estranha visita no meio da noite de seu amigo de infância Pavel Pavovlitch anunciando a morte de sua esposa Natália Vassilievna, uma de suas amantes. A partir deste encontro inusitado o enredo toma fôlego. Explode então a maestria e gigantismo do escritor ao inserir densidade e psicologismo nos diálogos travados entre o traído, humilhado e ofendido e o insolente Don Juan. E no meio do confronto a presença da filha da morta, a dúvida da paternidade, a angústia, o ódio, o desejo de vingança brotando de dentro dos dois protagonistas. (a lembrança de Dom Casmurro?) Como diz Veltchaninov: "Tudo isso é ridículo; somos, ambos, indivíduos viciosos, baixos, fingidos.." Depois de fechar a última página me ponho a pensar que talvez o ser humano não tenha mudado nada nesses anos todos...

terça-feira, 5 de novembro de 2019

     
       
     
Poderia ser reconhecido como um dos grandes escritores russos. Mas Iuri Oliécha, foi impositivamente expurgado, banido e esquecido pela "inteligentzia", pelo meio literário russos, principalmente pela sua opção ao individualismo e crítica contumaz ao coletivismo. Nesta curta novela, impregnada de fascinantes metáforas, o personagem central Kavaliérov, alter ego do escritor, um intelectual em desgraça, cheio de descrença e amargura ao mundo que o rodeia, descreve-o com desdém . E sobrecarregado de inveja deste mesmo mundo que ele tanto despreza e muitas vezes observa-o com indiferença, Kavaliérov esforça-se em " romper com tudo o que existira antes...(....), e aquela vida repelente, monstruosa, que não era dele, uma vida alheia, imposta, ficaria para trás... " Com tradução magistral e pósfácio de Boris Schnaiderman, bom que se diga, é uma novela leve, ágil, com enorme fluidez proporcionada pelo tradutor. Mas o que encanta aqui é a estilística literária, que provavelmente deixara atônitos os literatas do início do século XX. Também pudera!! Com metáforas como "O coração pula como um ovo em água fervente", é impossível não se inebriar por esta história. É só deitar no divã e abrir a primeira página. Encontrará as reminiscências de um homem que concorda com seu amigo Ivan: "Penso que a indiferença é a condição melhor da mente humana."

sábado, 23 de março de 2019

COMO CURAR UM FANÁTICO





               COMO CURAR UM FANÁTICO


              
               O eterno conflito entre judeus e árabes palestinos por uma partilha de terras justa e permanente e consequentemente a esperança de um dia ver reinar a paz entre esses povos é o principal tema deste ensaio do escritor israelense Amós Oz. Volto à escrita desse israelense, nascido em Jerusalém, porque ao ler De Amor e Trevas, um romance, descobri um autor de textos objetivos, densos e ao mesmo tempo povoados de humor. Um humor que serena a tragédia palestina e judia. Um humor que enfraquece a dureza do fanatismo, do radicalismo, da ortodoxia.
              Em verdade o assunto central deste ensaio é abordar o fanático, este ser tão reprodutivo no mundo contemporâneo. Em apenas cem páginas, Oz disseca o perfil enigmático e conflituoso do fanatismo religioso. E, por falar em humor, logo nas primeiras páginas sugere que "Fanáticos não têm humor, e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco do questionamento para não ser revelado o seu próprio erro."   E eu penso que Amós conhece bem o tema, pois viveu dentro de um caldeirão de fanáticos cegos em democracia, em liberdade, em respeito à diversidade. Ele pondera que Jesus Cristo disse "Perdoa-lhes: eles não sabem o que fazem". Mas ressalta que o fanático quer sempre infligir dor. E eles sabem o que fazem.  E explicando melhor, acentua que o "fanatismo e fundamentalismo muitas vezes têm uma resposta com uma só sentença para todo o sofrimento humano. O fanático acredita que se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta....O fanatismo é muito antigo. É muito mais velho que o islã, o cristianismo e o judaísmo".  E confirmando o que vemos com frequência, diz que "o fanatismo muitas vezes origina-se na vontade imperiosa de modificar os outros pelo próprio bem deles".  E que "muitas vezes, essas coisas começam em família, o fanatismo começa em casa...um impulso de viver sua vida calcada na vida de outra pessoa".
              Em certo momento, principalmente já no final, antes de uma entrevista grandiosa concedida no final de 2003, volta ao conflito entre palestinos e israelenses. Ele desejaria viver mais - morreu em 2018 - para ver consagrada a tão desejada paz. E ainda assim, debaixo de tantos conflitos, de tanto fanatismo, vislumbra um fio de esperança. Enfatiza que toda a sua obra direcionou para o "compromisso" entre os irmãos. Mesmo que muitos fanáticos tentaram desviar e "transformar o que eu descrevi como uma 'disputa imobiliária' numa Guerra Santa.
                É um pequeno texto, penso eu, que tem a condição necessária para aqueles que querem entender e acreditar na solidariedade social, na democracia e no livre arbítrio.

                       
        

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O JUDAS DE OZ

            

                        O JUDAS DE OZ


                     Lançando mão de uma história comovente, a relação de um estudante desiludido, cuja família entrou em decadência, e um velho conturbado, genioso, ranzinza,  mas misteriosamente otimista, esta obra mescla o velho e o novo, consternação e piedade de um povo em eterno conflito.
                Na verdade, Amós Oz, considerado o maior romancista israelense contemporâneo e que morreu há pouco menos de um mês, deseja relatar o desespero entre o “povo árabe e seus irmãos israelenses.” através de diálogos consistentes entre o jovem Shmuel, desistente da Univerisdade Hebraica, onde desenvolvia uma tese de pós-graduação, “Jesus na visão dos Judeus”, e o velho que expõe as suas reminiscências de uma vida longa para confirmar a necessidade de uma paz negociada entre os povos ancestrais e irmãos.
               Ao mesmo tempo o romance resgata a vida de Judas Iscariotes - provavelmente Oz aqui baseou-se nos escritos apócrifos - , desmitificando-o como o tradicional traidor. Judas é então tratado como um discípulo judeu bom, pacificador, inteligente e que exercia grande influência sobre Jesus. E Judas Iscariotes, que fora enviado pelos sacerdotes para revelar-lhes o verdadeiro poder do enviado de Deus, que pregava nos mais recônditos vilarejos da Galileia, acabou absorvido pela pregação e milagres de Cristo, tornando-se um dos seus seguidores mais fiéis. É isto que nos conta Amós Oz neste romance extraordinário.
                  O romance a todo instante, numa constante metáfora, evoca a necessidade da paz entre os homens. Afinal, Jesus trouxe a boa-nova, o perdão, o amor, a paz. Sem a evocação do Apocalipse como punição à diversidade.  Rompeu com a tradição sanguinária do velho, do antigo - numa referência moderna, expulsou a violência inimaginável da distopia de Gilead !! - E não a vingança, o ódio, o desejo de morte e derramamento de sangue entre irmãos. Porque mesmo diante da figueira, mesmo ao enfrentar os vendilhões do Templo, a sua mensagem era de paz, de amor e desejo de uma sociedade em harmonia e fraternidade. Diante de Jesus, de sua pregação pelos vales da Terra Santa, certamente aqueles que pregam a discórdia, o enfrentamento e a vingança receberia a redenção.
               
                     É a temática desta obra-prima !
                             
                  Sem esperança, o jovem Shmuel faz suas caminhadas noturnas pelas ruas de Jerusalém, como um errante em busca do destino final. Em suas elucubrações busca um sentido para si aqui na Terra. Reflete sobre a traição que o pai sofrera do sócio  na Empresa, levando a derrocada financeira de toda a família. Mas parece que, como numa epifania, assim que o romance caminha para o final, alguma luz de esperança surge em seus pensamentos: a paz, o amor entre os seres humanos aqui na Terra.
                E numa noite destas, ele para diante de uma figueira e colhe "um ou dois frutos precocemente amadurecidos....porque nenhuma figueira frutifica antes da primavera".  Na rua seguinte, caótica e "cheia de destroços, numa janela do segundo andar apareceu uma mulher jovem e bonita, num colorido vestido de verão." Uma mulher agradável e que, provavelmente, o faz lembrar da tristeza e decepção que sentiu naquele dia não tão distante em que Iardena, a jovem namorada o abandonou para sempre.
                Naquela rua escura e deserta, mesmo sem saber aonde ir, a esperança de dias melhores parece ter brotado dentro do jovem Shmuel...