LEITURA DA SEMANA#1 SIMONE DE BEAUVOIR – UM VIDA
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domingo, 30 de agosto de 2020
SIMONE DE BEAUVOIR, uma vida
LEITURA DA SEMANA#1 SIMONE DE BEAUVOIR – UM VIDA
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
A Montanha Mágica
A MONTANHA MÁGICA
Mil e uma noites não foram necessárias para desvendar o mistério da montanha de mil páginas deste consagrado romance mundialmente. No entanto, vários dias concomitantes ocuparam-me, dias mágicos, encantados e felizes resgatados de dentro da angústia da pandemia. Lembrei-me das noites silenciosas do rei Shariar diante de Sherazade, a cada noite mais enfeitiçado e esquecendo de seus propósitosprimários, de seu mundo excruciante e desejoso de vingança. Me lembrei até de Michel Foucault (1926-1984) analisando a narrativa, a oralidade da cativante contadora de histórias: “Penso que em “As mil e uma noites”, falava-se, narrava-se até o amanhecer para afastar a morte, para adiar o prazo deste desenlace que deveria fechar a boca da narradora.” Mas, neste monumental romance de formação, que me dei a ousadia de resenhar,Thomas Mann (1875-1955) não escreve apenas sobre a morte senão sobre a vida, sobre o tempo, política, filosofia, amor e ódio...
Mann ganhou o prêmio Nobel de literatura pelo aclamado “Os Buddenbrooks”, embora o mais popular seja mesmo “Morte em Veneza”. O escritor, vindo de família alemã rica, abastada, burguesa retrata com frequência essa condição em seus inúmeros livros. Era filho de brasileira, Julia da Silva Bruhns (1851-1923) filha de alemão e mãe portuguesa latifundiários na região de Paraty, época de D. Pedro II. Referindo-se a isso, uma vez ele disse que tinha orgulho de ter o sangue brasileiro correndo em suas veias: “...creio que à origem latina e brasileira devo certa clareza de estilo. E, para dizer aos críticos, o temperamento pouco germânico. Li apaixonadamente os escritores alemães, clássicos russos, franceses e ingleses, porém estou certo que a influência mais decisiva sobre a minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe.”
Em “A Montanha Mágica”, a opus Magnum, observa-se a exposição da alegria na cena do carnaval, as reuniões festivas e debochadas, um sem-número de confraternizações regadas à comida pantagruélica. Destarte, era uma vida de felicidade e opulência. Certamente ele retratava ali a sua própria vida, assim como da mesma forma nos outros romances. Embora também mencionasse os momentos sombrios, difíceis, reflexo dos suicídios de suas duas filhas – Julia e Carla -, a fuga da Europa, assolada pelo nazifascismo, para os Estados Unidos. Junto a esses fatos a lida com o homossexualismo em anos soturnos na Europa e no mundo. No exílio americano converteu-se em ferozcombatente ao führer Adolf Hitler. Dizia sempre que “onde eu estiver a Alemanha sempre estará”. Voltou tempos depois, já naturalizado americano, para Zurique onde está sepultado.
“A Montanha Mágica” é uma narrativa sobre o tempo. Em relação a isso, antes de iniciar a longa história Thomas Mann avisa que “queremos narrar a vida de Hans Castorp – não por ele –“e que “os fatos aqui referidos se passaram há muitos anos já. Estão, por assim dizer recobertos pela pátina do tempo, e em absoluto não podem ser narrados senão na forma de um passado remoto.”
Então Hans Castorp, o protagonista, jovem engenheiro naval recém-formado de Hamburgo, rico e herdeiro de vultuosa fortuna, sempre protelando o início da profissão, resolve visitar o primo Joachim lá no alto das montanhas dos Alpes suíços num sanatório para tuberculosos – só para a nata da burguesia europeia e mundial. Desde a longa viagem de trem subindo as montanhas até o único primeiro dia no Sanatório Internacional Berghof, onde o primo estava em tratamento há algum tempo, a narrativa se arrasta em longas duzentas páginas. O tempo é elástico ali. Ninguém tem pressa. Todos sabem das chances de sobrevivência. E Hans Castorp chega para ficar apenas três semanas como visitante. À primeira vista ele não gostou.
- Não! Para falar com franqueza, não acho a paisagem assim tão formidável !
Nesse mesmo primeiro dia, ao ser apresentado ao dr. Krokowski, disse que passaria ali apenas três semanas em visita ao primo tuberculoso e que gozava de perfeita saúde.
- Será? – perguntou o dr. Krokowski, avançando a cabeça obliquamente, como para caçoar, enquanto o seu sorriso se acentuava – Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem de perfeita saúde...
Pouco tempo depois Hans Castorp conhece Settembrini, Lodovico Settembrini, um escritor humanista italiano de veia carbonária que já se encontrava ali também desde muito tempo. E o niilista italiano vai transfigurar-se num grande amigo e preceptor de nosso herói, pois possuía uma vasta cultura, apesar de sua incontrolável fanfarronice.
Aos poucos Castorp vai conhecendo toda aquela gente rica e modos burgueses ao extremo, gente toda em tratamento que se encontrava cinco vezes ao dia para refeições em sete grandes mesas separadas e ordenadas. Mesas de ricaços, topo exclusivo da pirâmide, mesas de, vamos dizer, menos ricos, as mesas dos aristocratas russo, dos “russos ordinários”... e assim se lavava a roupa suja da Europa no meio de pratos e mais pratos, digno de A Comilança de Marco Ferreri. Era o local onde se discutia sobre tudo. As mesas redondas permaneciam sempre completas, pois as mortes eram diárias, mas outros pensionistas chegavam imediatamente para ocupar os lugares vazios.
Chega o momento em que o nosso rico engenheiro conhece Mme. Chauchat e se apaixona. Clavdia Chauchat, uma suposta russa nobre que falava francês, despertou um sentimento arrebatador no “visitante e espectador desinteressado.” Ao passar pela primeira vez por Hans Castorp “ela esboçou um leve sorriso ao ver aqueles olhos e, segurando com a mão a trança que lhe cercava a cabeça levemente avançada, desceu à sua frente pela escada a passo elástico e silencioso.”
Dias depois, eles travaram um longo diálogo em francês – por quase vinte páginas do romance e sem tradução da editora Nova Fronteira –sugerindo um enlace enredado no destrinchado empréstimo de uma lapiseira de prata!
Ao longo do romance vão surgindo diferentes personagens que vão e vêm. Settembrini encontra em Naphta – um judeu convertido ao cristianismo, à ordem dos Jesuítas – o seu oponente, debatedor feroz, intolerante, sectário. Porque Settembrini acreditava na concretude do homem, na ciência, e na negação da existência de Deus. E ao longo dos meses os ânimos se arrefeceram pouco a pouco redundando no.... evito o “spoiler”, caro leitor, para não estragar a sua futura leitura!
Pois bem, o romance é muito extenso, é fato, mas de uma beleza extraordinária. Abre todos os leques da existência humana através dos infindáveis diálogos. Comenta-se sobre a morte extensamente vis a vis o ambiente. Recorre-se sobre a religião à exaustão, sobre a mitologia e os tempos imemoriais. Fala-se sobre livros e o “efeito purificante e santificador da literatura, a destruição das paixões pelo conhecimento e pela palavra.”
Na realidade, mais uma vez, o tema desse vasto romance é o tempo. Pois que o personagem central Hans Castorp, que pretendia apenas visitar o primo nas montanhas de Davos, depois de diagnosticado com a tísica ia ficando semanas, meses, anos... “O tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida”, diz o narrador.
Dizem que o melhor livro de Thomas Mann, a verdadeira opus Magnum, seria o “Dr. Fausto”. Talvez seja mesmo. Porém ele próprio considerava “A Montanha Mágica” o livro que mais mais apreciava.
Me arrependo com certo remorso de ter tantas vezes ao longo dos anos olhado sempre de esguelha para este livro lá no alto da minha biblioteca sem nunca o ter resgatado de sua inércia. Talvez por algum temor obscuro de sua grandeza. Ou talvez com medo do tempo que ele me auferiria. Mas agora faz parte do ganho, do acúmulo de meu conhecimento. É o que a literatura nos recompensa. E nos direciona, segundo Thomas Mann a “uma longa jornada rumo a si próprio.”
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Houve uma época em que escolhia os livros na livraria pelos títulos. Os títulos me atraíam, confesso sem pudor: A Montanha Mágica, Conversas na Catedral, A Obra em Negro...
Tempos depois, a suntuosidade, a beleza, o esmero artístico da capa ganharam lugar e assim passei a comprá-los pela capa. Algumas ostentando verdadeiras obras de arte!
Mais tarde, melhor conhecedor de literatura, a escolha revelou-se mais selecionada e, consequentemente, determinada pelo conteúdo e conhecimento prévio do tema de cada livro.
Mas eis que agora estou diante de minha caótica, embora exígua, biblioteca e buscando mais um Dostoiévski (este ano estou no momento sublime dos russos) e sou atraído pela sugestiva e bela capa de O Eterno Marido. Embora tenha visto ali contíguo o "Notas do Subsolo" da Martin Claret, uma bela capa sem dúvida, não foi uma Escolha de Sofia.
O Eterno Marido foi escrito em um curtíssimo espaço de tempo. Menos de três meses. Dostoiévski estava em apuros financeiros, rodeado de credores e uma vida de penúria. E escreveu a toque de caixa, uma novela curta porém extraordinária, espelhando o monstro literário que ele carregava dentro de si. Embora ele próprio não expressasse grande amor, o livro foi aclamado no momento do lançamento, em folhetins, pela crítica da época.
O tema principal é o adultério feminino. Ou seja, de grande atração para os leitores da época. Simplesmente porque o masculino em contrapartida era aceito normalmente tanto pela aristocracia quanto pela plebe. Fiódor Dostoiévski não expressa seu ponto de vista aqui no texto. Ele fica de fora. Pois sabemos que ele foi um seguidor e conhecedor profundo da Bíblia. E que foi o único livro que leu durante os longos anos de prisão na Sibéria. Por isso, em toda a sua obra posterior o escritor espalhou Jesus Cristo, a crença em Deus e o catolicismo por todo o seu trabalho.
Mas vamos falar do Eterno Marido:
Veltchaninov é um nobre solteirão que vive à caça das mulheres insatisfeitas no casamento. Via de regra é o amante ideal para essas infelizes. E ele sabe disso e se vangloria. Sobre uma delas ele diz: "É uma dessas mulheres que nasceram para ser infiéis ao marido... dessas que não caem, antes do casamento. É a lei de seu temperamento que isto aconteça depois. O marido é o primeiro amante..."
Anos depois de suas aventuras amorosas, Veltchaninov recebe a estranha visita no meio da noite de seu amigo de infância Pavel Pavovlitch anunciando a morte de sua esposa Natália Vassilievna, uma de suas amantes.
A partir deste encontro inusitado o enredo toma fôlego. Explode então a maestria e gigantismo do escritor ao inserir densidade e psicologismo nos diálogos travados entre o traído, humilhado e ofendido e o insolente Don Juan. E no meio do confronto a presença da filha da morta, a dúvida da paternidade, a angústia, o ódio, o desejo de vingança brotando de dentro dos dois protagonistas. (a lembrança de Dom Casmurro?) Como diz Veltchaninov: "Tudo isso é ridículo; somos, ambos, indivíduos viciosos, baixos, fingidos.."
Depois de fechar a última página me ponho a pensar que talvez o ser humano não tenha mudado nada nesses anos todos...terça-feira, 5 de novembro de 2019
Poderia ser reconhecido como um dos grandes escritores russos. Mas Iuri Oliécha, foi impositivamente expurgado, banido e esquecido pela "inteligentzia", pelo meio literário russos, principalmente pela sua opção ao individualismo e crítica contumaz ao coletivismo. Nesta curta novela, impregnada de fascinantes metáforas, o personagem central Kavaliérov, alter ego do escritor, um intelectual em desgraça, cheio de descrença e amargura ao mundo que o rodeia, descreve-o com desdém . E sobrecarregado de inveja deste mesmo mundo que ele tanto despreza e muitas vezes observa-o com indiferença, Kavaliérov esforça-se em " romper com tudo o que existira antes...(....), e aquela vida repelente, monstruosa, que não era dele, uma vida alheia, imposta, ficaria para trás... " Com tradução magistral e pósfácio de Boris Schnaiderman, bom que se diga, é uma novela leve, ágil, com enorme fluidez proporcionada pelo tradutor. Mas o que encanta aqui é a estilística literária, que provavelmente deixara atônitos os literatas do início do século XX. Também pudera!! Com metáforas como "O coração pula como um ovo em água fervente", é impossível não se inebriar por esta história. É só deitar no divã e abrir a primeira página. Encontrará as reminiscências de um homem que concorda com seu amigo Ivan: "Penso que a indiferença é a condição melhor da mente humana."
sábado, 23 de março de 2019
COMO CURAR UM FANÁTICO
O eterno conflito entre judeus e árabes palestinos por uma partilha de terras justa e permanente e consequentemente a esperança de um dia ver reinar a paz entre esses povos é o principal tema deste ensaio do escritor israelense Amós Oz. Volto à escrita desse israelense, nascido em Jerusalém, porque ao ler De Amor e Trevas, um romance, descobri um autor de textos objetivos, densos e ao mesmo tempo povoados de humor. Um humor que serena a tragédia palestina e judia. Um humor que enfraquece a dureza do fanatismo, do radicalismo, da ortodoxia.
Em verdade o assunto central deste ensaio é abordar o fanático, este ser tão reprodutivo no mundo contemporâneo. Em apenas cem páginas, Oz disseca o perfil enigmático e conflituoso do fanatismo religioso. E, por falar em humor, logo nas primeiras páginas sugere que "Fanáticos não têm humor, e raramente são curiosos. Porque o humor corrói as bases do fanatismo e a curiosidade agride o fanatismo ao trazer à baila o risco do questionamento para não ser revelado o seu próprio erro." E eu penso que Amós conhece bem o tema, pois viveu dentro de um caldeirão de fanáticos cegos em democracia, em liberdade, em respeito à diversidade. Ele pondera que Jesus Cristo disse "Perdoa-lhes: eles não sabem o que fazem". Mas ressalta que o fanático quer sempre infligir dor. E eles sabem o que fazem. E explicando melhor, acentua que o "fanatismo e fundamentalismo muitas vezes têm uma resposta com uma só sentença para todo o sofrimento humano. O fanático acredita que se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta....O fanatismo é muito antigo. É muito mais velho que o islã, o cristianismo e o judaísmo". E confirmando o que vemos com frequência, diz que "o fanatismo muitas vezes origina-se na vontade imperiosa de modificar os outros pelo próprio bem deles". E que "muitas vezes, essas coisas começam em família, o fanatismo começa em casa...um impulso de viver sua vida calcada na vida de outra pessoa".
Em certo momento, principalmente já no final, antes de uma entrevista grandiosa concedida no final de 2003, volta ao conflito entre palestinos e israelenses. Ele desejaria viver mais - morreu em 2018 - para ver consagrada a tão desejada paz. E ainda assim, debaixo de tantos conflitos, de tanto fanatismo, vislumbra um fio de esperança. Enfatiza que toda a sua obra direcionou para o "compromisso" entre os irmãos. Mesmo que muitos fanáticos tentaram desviar e "transformar o que eu descrevi como uma 'disputa imobiliária' numa Guerra Santa.
É um pequeno texto, penso eu, que tem a condição necessária para aqueles que querem entender e acreditar na solidariedade social, na democracia e no livre arbítrio.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
O JUDAS DE OZ
O JUDAS DE OZ
É a temática desta obra-prima !
Sem esperança, o jovem Shmuel faz suas caminhadas noturnas pelas ruas de Jerusalém, como um errante em busca do destino final. Em suas elucubrações busca um sentido para si aqui na Terra. Reflete sobre a traição que o pai sofrera do sócio na Empresa, levando a derrocada financeira de toda a família. Mas parece que, como numa epifania, assim que o romance caminha para o final, alguma luz de esperança surge em seus pensamentos: a paz, o amor entre os seres humanos aqui na Terra.
E numa noite destas, ele para diante de uma figueira e colhe "um ou dois frutos precocemente amadurecidos....porque nenhuma figueira frutifica antes da primavera". Na rua seguinte, caótica e "cheia de destroços, numa janela do segundo andar apareceu uma mulher jovem e bonita, num colorido vestido de verão." Uma mulher agradável e que, provavelmente, o faz lembrar da tristeza e decepção que sentiu naquele dia não tão distante em que Iardena, a jovem namorada o abandonou para sempre.
Naquela rua escura e deserta, mesmo sem saber aonde ir, a esperança de dias melhores parece ter brotado dentro do jovem Shmuel...






